segunda-feira, 23 de julho de 2012

Já é de manhã e o que passou pela cabeça de Jorge não posso-lhes contar. Mas ele mesmo tratou de esquecer, essas ideias não são boas companheiras de trabalho. Quantos erros de escrita detectados, seus alunos não estão lendo o que recomenda, é a unica explicação plausível... Ai, que a concentração lhe foge e torna a lembrar de Ana, de seus olhares carinhosos, suas formas frágeis habitando o mesmo ser de um temperamento explosivo. Ana era, por muitas vezes, a melhor lembrança que lhe ocorria, quanta saudade. Desde que começou a exercer suas funções de educador, Jorge ocupou-se com seus projetos e pouco se viam, mas ela estava sempre lá, na loja de jardinagem, a cuidar daquelas plantas, ele chegou a comprar uma samambaia, um pau dágua, mini cacto, uma lança de são jorge e um lírio da paz só pra ter o pretexto de ficar conversando, de ir vê-la. Mas o tempo foi passando, mudaram de telefone sem que o outro soubessem, deixaram de compartilhar historias e isso foi se acumulando ao passo que já não sabiam como puxar assunto, mas sentiam falta de conversar a bobagem que fosse, se aproximar era o que queriam.
Até que chegou o dia de ação de graças, ele estava cheio de coisas a fazer, mas não suportava mais ficar enfornado dentro de casa e saiu, em busca de alguém para um dedo de prosa, em busca de matar a saudade de Ana... E lá estava ela, forrando a mesa com uma toalha de bilro, mas logo viu que Ana já não a reconhecia, estava mudada em seus gestos, o olhou com rancor. Ele não compreendia, mas quando se deu conta, Ana estava com uma família formada, com um bebê no ventre. Isso foi o suficiente para ele se sentir um idiota. A unica pessoa que tanto estimava, pensava ter sido esquecida por ele, Ana o amou, mas o amor foi substiuido pela solidão, pelo despeito, pelo ódio e para Jorge já não olhava com carinho. Ele era o culpado por terem se afastado, assim pensava ela, ele passava todos os dias pela loja, mas correndo, estava sempre ocupado e extressado demais para atender os telefonemas sugerindo outras plantas decorativas, as suas já haviam morrido por falta de cuidados. E assim morreu o amor entre eles, por falta de cuidados, de atenção, morreu esquecido.

sábado, 21 de julho de 2012


Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos